Merry Clayton, Música Negra e História – Entrevista #7 Thamirez Martins

Thamirez Martins é formada em Bacharelado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

The History Freebooter: Por que história e por que a UFRGS?

Thamirez Martins: A disciplina sempre foi muito interessante para mim, desde muito criança sempre gostei muito, eu e meu pai conversávamos muito sobre história. Eu tinha um fascínio muito grande de saber sobre as histórias dele e sua adolescência nos anos 1970, assim como as histórias da minha avó, sempre relatando a enchente de 1941 em Porto Alegre. Achava um máximo, mesmo. Conversar com eles me deu uma dimensão da vida que passou e que me cercava. Com 12 anos descobri o que tinha sido uma ditadura no Brasil e o buraco na camada de ozônio, sério, fiquei muito preocupada (risos). Mas para além da preocupação, a minha curiosidade em entender os processos históricos e se posicionar diante dos fatos, creio que me moldaram e propiciaram que meu interesse pela disciplina fosse mais instigado. No entanto, como uma possível carreira sempre colocava como uma ideia que poderia ser arcaica, achava que ser professora de história – nem imaginava um sujeito historiador para além da sala de aula – era algo ligado a pessoas velhas. Pensava, então, que jornalismo era algo jovem, ativo e dinâmico, então fiz vestibular para área. Mas história tava sempre ali, sempre como uma opção, até que no último vestibular que quis fazer mudei o curso e oito anos depois estou aqui bacharela em história pela UFRGS.Quanto a UFRGS, primeiro de tudo já tinha consciência de que manter uma universidade privada seria inviável diante da situação financeira da minha família, que já havia feito esse movimento com o meu irmão. Queria ter a tranquilidade de não ter que arcar financeiramente com os estudos, pois seria bem pesados para os meus pais. A UFRGS em si sempre foi um objetivo, um ideal, sempre quis estar neste espaço, fazer parte, estudar na federal. Mas não tinha a menor noção do que é ser universitária e sobretudo estudante de História desta universidade. Meu horizonte ampliou completamente.

The History Freebooter: Como estudante de História da UFRGS, como tua avalia os teus anos de estudos do início até a diplomação?

Thamirez Martins: Bom, eu cheguei muito empolgada pela novidade em si, de estar na Universidade, porém não fazia ideia alguma do que era ser estudante de história. As disciplinas do primeiro semestre foram um baque, pois história antiga e pré-história geral até tinha uma ideia do que seriam, mas Introdução à história fiquei me sentindo muito perdida, questionando o meu próprio pertencimento aquele lugar. Me sentia em desvantagem aos meus colegas, um tanto mais jovens que eu, recém vindos do ensino médio e eu que já tinha saído da escola há um certo tempo. Em parte pelos próprios conhecimentos prévios, pareciam mais afiados e mais espertos frente ao que estávamos estudando e eu completamente perdida, em momentos fingindo saber o que ocorria e em outros talvez absorvendo de fato aqueles conhecimentos e novo universo. No ano seguinte comecei a questionar se realmente queria estar ali, já que ao meu ver me faltava disciplina e um entendimento maior das aprendizados que viriam. Mas acabei fazendo uma disciplina que norteou uma ideia, ainda que inicial do trabalho de conclusão de curso, me dando assim um objetivo maior para chegar ao final do curso. Os dois primeiros anos de curso foram bem desafiadores, disciplinadores – pois acabei por me adequar e me sentir confortável naquele espaço – e também divertidos. As relações sociais foram um elemento muito importante na minha trajetória acadêmica. O apoio dos amigos que fiz, das relações que se estabeleceram possibilitaram que não me sentisse só e incompreendida, pois meus amigos, dadas as suas especificidades e características pessoais, também passavam por coisas muito parecidas que eu estava passando, então nossas relações também foram de suporte mútuo, do início ao fim. Mesmo assim, fora da academia a vida continua e se entrelaça à faculdade, então desde momentos muito felizes a momentos de tédio e tristeza afetaram de alguma maneira a minha trajetória. A depressão que achava que sabia lidar junto a síndrome de impostor que sempre esteve e está presente me dificultaram em completar os quatros anos ideais de conclusão de curso, sendo assim me formei com seis anos de curso, com os dois últimos anos cancelando dois TCCs, fazendo inúmeras disciplinas eletivas para “existir” enquanto aluna que frequentava o curso. Nesse exato momento sou aluna do reingresso, fazendo licenciatura e seleção de mestrado para o mesmo curso.

The History Freebooter: Qual disciplina que lhe deu um norte e como foi que você chegou ao seu tema de pesquisa no TCC?

Thamirez Martins: Bom, a disciplina era Cultura Brasileira I – a II nunca vi sendo ofertada -, e me auxiliou na primeira ideia de TCC, que acabei não escrevendo. Era sobre Estado Novo, Getúlio Vargas e seus amigos. Mais para frente o tema acabou se tornando análise do Estado Novo através de fotografia publicadas na Revista do Globo entre 1929 a 1931. Era um bom tema, mas acabei perdendo o interesse em realizá-lo.

The History Freebooter: Como foi a  experiência de lidar com depressão durante os estudos num curso superior? A universidade ofereceu algum tipo de apoio? 

Thamirez Martins: Lidar com a depressão durante a universidade foi como em outros momentos da minha vida, estar em estado de negação. O primeiro ano de faculdade foi bem divertido e desafiador, mas o segundo foi bem complicado, vida afetiva, vida de universitária. Lembro muito que eu e um amigo nos apoiávamos mutuamente durante os períodos ruins. Ele foi a primeira pessoa que me falou sobre os atendimentos na clínica de psicologia da universidade. Como sempre, achei que não precisava e nem fui procurar saber como funcionava. Tempos depois, em função de várias coisas que vinham ocorrendo na minha vida, pegava ônibus para ir na clínica, mas não descia. Para o final do curso eu já estava com créditos suficientes para me formar, bastava escrever o trabalho de conclusão de curso, mas simplesmente não conseguia. Fiquei assim por dois anos, até que por incentivo do meu então namorado e por perceber que realmente as coisas não iam bem, procurei atendimento na clínica, onde me trato até hoje. De fato muitas coisas que a universidade oferece a comunidade acadêmica e extra acadêmica não é informada amplamente e/ou diretamente. Como mencionei, meu amigo me falou sobre a clínica em 2012. Depois, eu mesma trabalhando na clínica de fisioterapia tive conhecimento dos serviços oferecidos com baixo custos nas clínicas-escola da universidade. Então esses auxílios são oferecidos de maneira indireta, o serviço existe, mas é necessário procurar por ele.

The History Freebooter: Quais são os planos futuros no mestrado?

Thamirez Martins: Pois bem, o mestrado vem muito mais como uma continuidade da minha trajetória acadêmica, como um caminho óbvio dentro da área, ainda mais sendo bacharela. Encaro como encarei a graduação quando ingressei: um desafio e algo que possa ampliar o meu horizonte, uma real oportunidade de vida mesmo. Como fiz no TCC, sigo trabalhando com os estudos culturais, área na qual me sinto confortável e me sinto realmente uma pesquisadora de verdade. Acho que ficamos muito tempo estudando até a diplomação e a consciência de que somos profissionais da nossa área é uma perspectiva diferente, e vamos nos apropriando lentamente disso. Nos vemos por muito tempo como estudantes, se dizer historiador é quase como atingir a vida adulta e dizer “sou adulta” (risos). Enfim, estudar o que eu realmente gosto para além das temáticas clássicas que se possa estudar e pesquisar na área de certa forma me libertou, fez com que me entendesse melhor como profissional. Almejo esse crescimento com o possível mestrado.

The History Freebooter: Quem foi Merry Clayton e como foi a pesquisa sobre ela?

Thamirez Martins: Okay, Merry Clayton. Bem, ela surgiu pra mim na verdade quando meu ex-namorado tava escrevendo o TCC dele, a gente ouvia as músicas juntos, e ele escreveu sobre capas de discos das década 1960 e 1970. Depois de desistir do primeiro TCC, eu decidi que iria trabalhar com música, o que na minha cabeça seria trabalhar com algo a ver com punk, hardcore ou algo alternativo, aí então que ele me sugeriu a Clayton, porque nesse ponto já sabíamos quem ela era, e estávamos com umas ideias de escrever artigos juntos, coisa que nunca aconteceu. Mas a ideia aconteceu. Gostei da ideia, e fui amadurecendo ela na minha cabeça, que maneira iria abordar. A Merry foi uma cantora backing vocal, de estúdio, começou bem cedo, adolescente, na igreja como era bem comum entre as meninas da comunidade afro-americana. Nessa mesma época começou a cantar em seu próprio girl groupcom 14 anos, e em seguida conquistou o disputado posto nos backing vocal de Ray Charles, as Raelettes. Em sua carreira fora muito requisitada como cantora de estúdio, gravando vocais para Neil Young, Carole King, Burt Bacharach, Lynyrd Skynyrd, Rolling Stones – incluindo a célebre gravação de Gimme Shelter -, porém por mais que a carreira de estúdio estivesse indo bem, e que sempre tivera apoio de seu pai e posteriormente de seu marido – sabemos, mulher, anos 1960, pai e marido podiam ter sido um grande empecilho para a carreira artística dela -, sabia que um próximo passo seria uma carreira solo, como muitas outras meninas que fizeram parte de grupo de garotas e backing vocal, estava na hora de seguir um caminho próprio. Então em 1971 Merry lança seu primeiro trabalho solo, no qual regrava, em seus termos, a famosa faixa-título. Em 1971 é lançado Merry Clayton, onde regrava Southern Man de Neil Young, na qual também havia gravado backing vocals. Talento não faltava, no entanto a fama não veio. Trabalhar com essa trajetória trazendo o contexto deste período relacionado com as canções foi muito interessante e importante pra mim. Trabalhar a temática História e música falando da trajetória de uma mulher negra na indústria fonográfica dominada e controlada por homens. Pesquisar sobre ela e trazer esse tema para o último trabalho da graduação, foi bem significativo pra o tipo de pesquisa que quis e quero realizar, e com o que identifico e defendo para além de um gosto pessoal – música, algo ligado a lazer – , também como objeto de pesquisa.

The History Freebooter: Tu, como mulher negra, trabalhando sobre a obra e a história de uma mulher negra, como seu trabalho se relaciona com a sua vida pessoal?

Thamirez Martins: Então, eu comecei pensar em trabalho de conclusão de curso pensando em trabalhar com uma grande figura histórica: homem, branco, acho que hétero, coxo (risos) e ditador. Não que estudar Getúlio Vargas e a ditadura do Estado Novo não seja relevante e algo que me interessasse enquanto historiadora, mas não dizia nada de mim para além de um interesse dentro do campo histórico. Comecei o TCC sobre a Merry, a princípio para mim era escrever sobre história e música, mas ao decorrer da escrita foi falar também de como me entendo como mulher negra dentro da academia, de como quando cheguei no curso de história era uma das poucas alunas negras, de como me adaptei ao espaço e as pessoas, de como tive que correr atrás de certo atraso com relação aos outros colegas, e de finalmente me entender como uma mulher feminista negra, que é completamente diferente do feminismo das minhas amigas brancas. Falar de si é grande confronto, porém necessário. Ao final da escrita, mesmo que apreensiva pela importância de escrever e apresentar um TCC, me senti muito bem de fazer um trabalho que tinha muito mais a ver comigo e com o que me interessa como sujeita historiadora.

Interessado no trabalho de Thamirez? Pode ler seu trabalho de conclusão de curso: Voz preta, música branca: a posição cultural de Merry Clayton.

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