História Militar e José Sarmento de Beires – Entrevista #6 Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro é aluno de doutorado em História Militar pela Universidade de Lisboa.

The History Freebooter: Como historiador, como foi seu percurso em estudos históricos e como você chegou até o seu tema de trabalho atual?

Fernando Ribeiro: Em primeiro lugar, a História sempre foi uma área de grande interesse para mim desde o ensino básico e secundário, sendo uma disciplina referência durante esse percurso formativo.
Seguidamente, quando tive possibilidades, fiz uma licenciatura em História na qual comecei a ter uma panorâmica mais abrangente do trabalho histórico e da metodologia historiográfica. Quando transitei para a situação de Reserva na Força Aérea Portuguesa considerei ser o tempo certo para retomar essa minha área de interesse que se revelava desde miudo. Então, decidi avançar para um Mestrado em História Militar, tendo por base toda a minha experiência pessoal na área da aeronáutica militar. O doutoramento nesta mesma área foi só o corolário lógico de todo o meu trajeto anterior.
A escolha do meu tema de trabalho no doutoramento (todo o ambiente relativo a José Sarmento de Beires – militar, aviador pioneiro, político, revolucionário. idealista, teósofo, maçom, etc.) decorre de uma análise no mesmo contexto militar relacionada com a aeronáutica militar.
Deixo para o fim a questão do investigador em História. Não me parece que tenha o título de historiador já que me falta tempo, traquejo, estrutura mental solidificada na área da História, experiência e conhecimento aberto dos caminhos que me será necessário obter para alguma vez me comparar aos Historiadores. Daí dizer que sou um mero investigador em História. Quando falo com os diversos Professores da Faculdade, pertençam eles a diferentes áreas específicas, questiono-me vivamente sobre o meu atraso de, pelo menos, 30 anos de trabalho em História.

The History Freebooter: Já no mestrado você trabalhava com o José Sarmento de Beires? Esse interesse continuou no doutoramento? E, como tem sido realizar essa pesquisa no doutorado?

Fernando Ribeiro: O tema da minha dissertação de mestrado foi a génese da Força Aérea Portuguesa e a influência do Aero Club de Portugal e da Revista do Ar. Necessariamente tive de analisar o pioneirismo da aviação em Portugal e as grandes viagens aéreas da primeira metade do século XX e, como tal, Sarmento de Beires foi apreciado nesse contexto ainda que de uma forma muito ao de leve.
A ideia de trabalhar a figura de Sarmento de Beires foi-me proposta pelo Professora António Ventura, ele mesmo ex-militar da Força Aérea, e a pesquisa tem sido muito frutuosa porque Sarmento de Beires é muito mais que o militar aviador e pioneiro da aeronáutica militar em Portugal. Muitas outras vertentes têm de ser abordadas porque Sarmento de Beires é uma figura muito rica que, inclusive e intencionalmente, foi esquecida em Portugal por motivos políticos.

The History Freebooter: Buenas, então nos conte, quem foi Sarmento de Beires?

Fernando Ribeiro: Sarmento de Beires foi um pioneiro da aviação militar em Portugal, previamente da especialidade de Engenharia militar. Fez parte do primeiro curso de pilotos militares promovido em Portugal. Sequencialmente, participou em raids aéreos entre a Europa e a Ásia e a Europa-África-América do Sul (Brasil).
Posteriormente, participou em pronunciamentos militares contra o governo da época em Portugal, foi preso, julgado e desterrado. Em suma, foi um idealista, republicano de esquerda, revolucionário, homem de cultura e metapsíquico.

The History Freebooter: Qual foi a atuação dele contra o governo Portugal da época? Você falou que ele sofreu um esquecimento devido a razões políticas, isso tem relação com a sua militância?

Fernando Ribeiro: Sarmento de Beires nunca viu com bons olhos o fim da I República portuguesa através do golpe militar de 28 de maio de 1926 conduzido elo Marechal Gomes da Costa e comandante Cabeçadas. Daí ter iniciado um conjunto de actividades político-militares que desembocou num primeiro golpe militar de 20 de julho de 1928. Foi de imediato demitido do Exército e passou à clandestinidade. Vivendo clandestino em Portugal participou num segundo golpe militar, também sem sucesso como o anterior, datado de 26 de agosto e 1931. Finalmente preso pela polícia política em novembro de 1933, foi julgado e desterrado no ano seguinte.
Na sequência desta atividade revolucionária, só pode voltar a Portugal em finais de 1950. Obviamente, com o governo de Salazar ainda no poder, foi votado ao esquecimento toda a sua actividade militar e de pioneiro da aviação do primeiro quartel do século XX (até cerca de 1927).

The History Freebooter: Como foi esse processo de esquecimento de Sarmento de Beires? E como você busca resgatá-lo?

Fernando Ribeiro: O processo de esquecimento consistiu em não se falar do seu nome em termos aeronáuticos e de história portuguesa. Por exemplo, Gago Coutinho e Sacadura Cabral sempre foram a referência nacional pela viagem Lisboa-Rio de Janeiro, em 1922, vastamente apresentados como heróis nacionais até à Revolução do 25 de abril de 1974 e, simultâneamente, o final do Estado Novo em Portugal. Pelo seu lado, em Portugal quase ninguém sabe quem foi Sarmento de Beires, mas este aviador fez na mesma década de 1920 as viagens Lisboa-Macau(1924) e Lisboa-Guiné-Fernando Noronha (1927), sendo que a parte da viagem entre a Guiné e a costa brasileira foi efectuada sem escalas e durante uma viagem noturna.
O meu resgate histórico consiste precisamente em falar bem alto dos seus feitos como militar, aviador e revolucionário português, que considero uma das figuras contemporâneas mais relevantes.

The History Freebooter: Sobre essa viagem entre Guiné e Brasil, pode nos contar com mais detalhes como foi essa aventura?

Fernando Ribeiro: A viagem desde a actual Guiné-Bissau até à costa brasileira foi uma perfeita aventura. 17 horas de voo noturno, nenhum apoio no meio do Atlântico, orientação pelas estrelas com um instrumento usado por Gago Coutinho, ainda que com pequenas alterações, problemas mecânicos do avião resolvidos “in extremis” por Manuel Gouveia, grande espírito de equipa, dúvidas existenciais perantes as terríveis dificuldades. Em suma, muita incerteza do resultado final, mas mais uma missão cumprida por uma intrépida tripulação aérea portuguesa. Pela primeira vez, uma aeronave efetuou uma travessia aérea noturna do Atlântico sul, entre África e a América do Sul, num voo sem escalas nem apoio de superfície. Constituiu mais uma vitória na evolução da Aeronáutica mundial.

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