História e Age of Empires – Entrevista #4 Historiador Carlos Bueso

Carlos Bueso é formado em história pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Carlos também é músico e escritor.

The History Freebooter: Tu és formado em história, mas resolveu não seguir a carreira. O que te levou a essa decisão?

Carlos Bueso: A graduação, mais em específico o vestibular, é um dos marcos no momento de passagem para a vida adulta. Ali não há escolha, o curso superior é um objetivo a ser alcançado por qualquer jovem de classe média e a pressão para isso é familiar, social e econômica. É fato que a universidade ainda é um termômetro para prever o futuro sucesso econômico do indivíduo, então eu fui lá e fiz o vestibular. Passei em história e cursei até o final. De início percebi que talvez aquele não fosse “meu curso” mas fui levando, até por que a universidade era uma atividade fácil, de poucas horas semanais e que não exigia muita dedicação (nessa questão, acredito que o curso de história em específico). Na época da graduação ainda trabalhava na empresa que minha mãe tinha porém, conforme o tempo passou, o fantasma do desemprego (que ronda todo bacharel em história) se tornava mais próximo. Seguindo o exemplo de alguns amigos, comecei a estudar para concursos públicos e, já na segunda prova, passei para trabalhar em um banco público. O emprego no banco é fácil e de poucas horas e, embora não tenha a melhor das remunerações, é um emprego estável que possibilitou o termino da graduação de forma tranquila. A decisão em seguir ou não na carreira não foi tomada de supetão, porém antes de chegar na metade do curso eu já tinha ideia de que estava lá apenas para buscar meu diploma e ser mais um jovem de classe média com nível superior. O trajeto até o final do curso foi apenas confirmando cada vez mais essa decisão que, de certa forma, já havia sido ‘tomada’.

The History Freebooter: Mas de que forma uma graduação em história impactou a tua vida?

Carlos Bueso: Talvez o ponto mais importante da graduação foi o contato com um mundo mais politizado e crítico. Embora às vezes pensemos que nossa visão de mundo seja fruto de um senso comum banal, muito dela é construída em ambientes de estudo onde temos contato com questionamentos que nós, muitas vezes, sequer pensamos ser possíveis. Num mundo cada vez mais politicamente polarizado, esse tipo de aprendizado crítico torna-se importante para analisar racionalmente as diversas conjunturas ao redor de nossas vidas. Além desse tipo de aprendizado, que eu considero deveras pessoal, também tive contato com disciplinas de estudo que até então desconhecia como por exemplo linguística, sociologia e filosofia que, assim como o pensamento crítico adquirido, acredito ser de inmensurável valor para minha formação como pessoa. Quanto a “história” de fato, aprendi algumas coisas mas a maioria do conhecimento histórico que possuo foi adquirido antes do meu ingresso na universidade (ressaltando que esse tipo de conhecimento embora necessário não é, nem de longe, o foco do curso). Com relação ao impacto mais “importante”, ou seja, on financeiro, nunca ganhei um centavo por ter estudado história. 

The History Freebooter: De alguma maneira a história impactou teu processo criativo em relação a música ou literatura?

Carlos Bueso: Essa é uma pergunta difícil. Tanto música quanto literatura são expressões artísticas e possuem em seu âmago reflexos da personalidade de seu criador; reflexos que podem ser traçados à infância, emoções, trajetórias de vida, universidade e tudo mais. Eu estaria mentindo se dissesse que a história não impactou meu processo criativo durante os últimos anos, embora acredite que essa influência se deu de forma indireta. Ali pela 8ª série, quando eu tinha em torno de 10 anos, eu podia passar dias a fio lendo livros de história o que, mais tarde, se desdobrou em um gosto por leitura e subsequentemente influenciaria todo meu processo criativo dos últimos anos. Tal processo, particularmente para mim, vem de uma necessidade em expressar algo pelo qual estou interessado no momento, seja ficção, seja história, seja o mundo ao meu redor. Nesse sentido, fazem muitos anos que perdi o interesse em si pela história; há tempos não tenho aquela vontade de consumir tudo relacionado a estudos de um certo período histórico embora sempre mantenha um livro de história na cabeceira. Hoje em dia minha produção artística limita-se a outros interesses, como a ficção científica por exemplo, mas tudo, de certa forma, começou com os primeiros livros de história.

The History Freebooter: Quais foram os livros de história que te acompanhram na juventude? Eles tiveram algum impacto na sua escolha por uma graduação em história?

Carlos Bueso: Dificilmente lembrarei dos nomes, mas os livros principais foram os livros didáticos. Muito embora a escrita fosse simplificada ou muitas vezes árida (como no caso dos livros de cursinho) a simples narrativa histórica era capaz de me prender. Quando eu recebi os livros da quinta série, foleando alguns, descobri no livro de história uma fonte de entretenimento que complementava o gosto pela história já despertado por jogos como Age of Empires. Eventualmente acabei entrando em contato com outros livros de história através de indicações em fóruns de internet (e das saudosas comunidades do orkut) e garimpo em livrarias/sebos mas também conheci a Wikipedia. As vezes o site é visto com certo desprezo (e eu compartilho pouco desse desprezo em relação a sua versão em português) mas foi nele onde pude ter acesso a informações antes inacessíveis para um jovem aluno do ensino médio. Se essa leituras influenciaram a escolha pelo curso de história, de certa forma sim, porém acredito que o principal fator foi o desinteresse por todos os outros cursos e por saber que pelo menos de história eu sabia bastante. Um fato curioso em relação a escolha do curso foi que, em 2009, ano anterior ao meu ingresso, eu frequentei por alguns meses um curso de desenho e quase acabei optando por uma graduação em artes visuais. Uma pena, talvez essa tivesse sido uma escolha mais certeira.

The History Freebooter: Acha que jogos de estratégia como Age of Empires e semelhantes tiveram algum impacto na decisão de estudar história?

Carlos Bueso: Com certeza, acredito que embora a história seja fascinante por si só, foram jogos como Age of Empires e Rome Total War que despertaram meu interesse. A primeira vez que joguei Age of Empires foi no primeiro computador que minha família teve aqui no Brasil (eu deveria ter em torno de 8, 9 anos), por algum motivo ele já veio no aparelho. A princípio eu não entendia muito o funcionar do jogo, mas com o tempo fui pegando gosto. Quando joguei pela primeira vez o continuação, o glorioso Age 2, eu comecei a me interessar pelas histórias contadas através do jogo e também nas civilizações nele representadas. Lembro de, inclusive, ter ido com minha vó até a biblioteca pública procurar livros sobre as civilizações do jogo, já que ela percebeu de cara meu fascínio pelos jogos e histórias nele representadas. Relembrando hoje em dia, como um historiador já formado, essa atitude da minha vó me admira muito já que ela mesma foi professora por toda sua vida e talvez tivesse visto nesse interesse algum tipo de futuro. De qualquer forma o impacto dos jogos é claro, não só na história como em diversos outros âmbitos da minha vida.

The History Freebooter: Vê algum futuro para a história na sua vida? Recomendaria algum livro de história para os leitores do blog?

Carlos Bueso: Hoje em dia encaro a graduação em história como algo passado, da mesma forma como encaro, por exemplo, o ensino médio. No que tange a vida profissional, dificilmente vejo futuro para a história na minha vida, embora acredito que ela, como formação pessoal, irá me acompanhar até o túmulo. Quanto aos livros que indicaria para aos interessados em história… Isso depende do que a pessoa busca; se ela quer conhecer a historiografia atual, existem diversos autores relevantes embora muito deste conhecimento esteja atrelado à academia. Se ela procura apenas informação histórica, a já citada Wikipedia é uma ótima fonte para os mais leigos. Se a pessoa está atrás de uma leitura interessante ou apenas entretenimento, sugiro livros de história escritos por jornalistas ou até mesmo fontes primárias (muitas das quais se aproximam muito a literatura popular). Agora se tivesse que escolher apenas um livro, acredito que escolheria o declino e queda do império romano de Edward Gibbon que, embora ultrapassado em visão historiográfica, ainda é uma monumental obra de literatura e um trabalho de extrema erudição, detalhamento e amor.

The History Freebooter: Sobre o que foi teu tcc e como foi realizar a pesquisa? 

Carlos Bueso: Cara, sobre o TCC. Eu basicamente peguei um tema de pesquisa oferecido por uma professora, no caso a Brandalise. O processo de pesquisa só levou adiante aquilo o que eu já havia trabalhado numa das cadeiras do bacharelado. Minha sorte foi que as fontes primárias todas estavam disponíveis na hemeroteca da biblioteca nacional. Foi um fichamento longo de muitas edições do A Federação, basicamente uma análise de discurso dos lacaios do Júlio de Castilhos contra os partidário do Silveira Martins. Fui fazendo um contraponto com o discurso midiático atual e verificando em outros trabalhos um panorama da mídia na época. Foi literalmente um trabalho para terminar o curso e nada mais. O negócio foi uma tortura de seis mêses da qual o resultado final foi, no mínimo, de qualidade duvidosa. Eu tava tão despilhado que tava escrevendo mal pra caralho, a Naiara inclusive nem conseguia entender o que eu escrevia direito. Mas no final eu passei e é isso que importa.

Quer conhecer mais o trabalho de Carlos Bueso? Ouça seus álbuns de música disponíveis no YouTube.

Interessado no que foi discutido acima? Abaixo segue uma lista de livros que você pode adquirir ao mesmo tempo em que ajuda ao The History Freebooter.

Edward Gibbon. Declínio e Queda do Império Romano.

Edward Gibbon. Os Cristãos e a Queda de Roma.

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