Mulheres Negras, Raça e Gênero – Entrevista #3 Bruna dos Santos

Bruna dos Santos é graduada em história pela Universidade de Caixas do Sul e mestranda em história pela Universidade do Vale dos Sinos. Trabalha com a história da escravidão brasileira, gênero e processos criminais no Brasil.

The History Freebooter: Tu és uma historiadora que trabalha questões de gênero e escravatura no Brasil, como foi seu percurso de estudante de história até se tornar uma pesquisadora interessada nesses temas?

Bruna dos Santos: Acho que o momento crucial para isso foi meu encontro com as fontes, nesse caso, os processos judiciais do século XIX, através de uma bolsa de pesquisa. Tive sorte, porque o caminho para o meu tema de pesquisa se mostrou pra mim. Talvez se eu não tivesse encontrado esses documentos não teria apostado na possibilidade de ser pesquisadora. A discussão de gênero no Brasil é recente, isso ocorreu a partir da década de 1990. A discussão de gênero atrelado a raça, mais recente ainda, não porque não se fazia essa discussão em outros espaços, mas porque esse foi um tema por muito tempo marginalizado. Quem, historicamente, se propôs a fazer esse tipo de questionamento não estava na universidade, ou estava de maneira restrita, tanto no que diz respeito a quantidade de pessoas, quanto a visibilidade que elas tinham. Então, foi um longo percurso para a consolidação de gênero e raça como temas ou eixos de pesquisa. Isso porque primeiro era necessário perceber o papel fundamental que esses eixos exercem socialmente. E também vencer duas barreiras a do racismo e a do machismo, que andam juntas com as questões de classe, e isso é determinante pra construção do conhecimento, se pensarmos quem produz, pra quem produz e com qual objetivo. Não vencemos ainda essas barreiras, mas encontramos caminhos de acesso. Tudo isso quer dizer que durante o meu curso de graduação, não se trabalhava gênero e raça como estruturantes, nós nunca estudamos história a partir dessas perspectivas, nem mesmo a da escravidão, muito também porque as grades curriculares dos cursos de história ainda são eurocêntricas. Por isso o contato com os documentos foi tão importante, foi na leitura deles que eu percebi a relação de gênero na escravidão. Foi também nesse espaço de leitura e de acesso a outro tempo e a seres humanos que existiram nele que eu tive contato com aquilo que poderia se aproximar de maneira mais efetiva de uma história do meu lugar, do lugar de mulher negra. Isso também foi fundamental, porque acredito que a escolha por um ou outro caminho na pesquisa tem a ver com o que nos toca, com o que é significativo para nós como sujeitos. Por isso considero que o encontro de nossos temas de pesquisa, e sobretudo, problemáticas de pesquisa são percursos complexos, porque dizem respeito a quem nós somos e ao nosso próprio processo de desenvolvimento, e amadurecimento, que nunca acaba. E também de como nós nos posicionamos no mundo. 

The History Freebooter: Tu citaste as barreiras do machismo e do racismo. Como elas estão interligadas e como elas afetam os seus estudos na academia, seja sua pesquisa ou sua vida acadêmica?

Bruna dos Santos: Machismo e racismo, ou construção de gênero e processo de racialização, são estruturantes não só da sociedade brasileira. Esse também é um dos motivos pelo qual os estudos sobre a escravidão me interessaram. Eu queria entender as relações sociais, e para isso precisava entender o processo de construção dessas relações. 
Dessa forma, uma sociedade que teve a sua organização imposta pela colonização, e como base econômica o escravismo, gênero juntamente com raça criaram formas de perceber o outro e assim, o que se esperava e como se via as mulheres negras. Ou seja, nós tivemos nossos corpos hipersexualizados, na representação da mulata. Também, criou-se a imagem da mãe preta, que cuida de todos, pois nasceu para servir e obedecer, mas que não consegue ser mãe de seus próprios filhos, e dona de seu próprio lar, porque está cuidando dos filhos e da casa dos outros. E, para aquelas que não aceitavam isso, logo eram denominadas como negrinhas atrevidas ou metidas, ou através de variações dessa expressão, de acordo com a temporalidade. Quem nunca ouviu isso no Brasil? 
E, ainda, criou-se a ideia de que somos mulheres fortes, as que aguentam tudo, exatamente porque nos negaram socialmente a sensibilidade e a fragilidade, só pra descartar alguns estereótipos.  
Com o passar do tempo, principalmente no pós-abolição, esses estereótipos já construídos são reforçados. Gênero e raça são acionados como mecanismos de manutenção das hierarquias sociais, criando-se lugares para os indivíduos de acordo com suas características, já que não havia mais uma distinção jurídica entre os indivíduos. Ainda que a documentação nesse período demonstre uma invisibilidade da cor, as relações eram extremamente racializadas. No nosso caso, não foi necessária uma legislação que estabelecesse lugar de branco e lugar de negro, ou melhor daquelas e daqueles que estavam mais próximos da animalidade e daqueles que não tiveram a desumanização como marca de suas trajetórias, isso estava colocado na dinâmica social, e não houve esforço para mudar tal cenário, mas, sim para mantê-lo, através da falácia da democracia racial, com a valorização da miscigenação como mecanismo de branqueamento, e do pressuposto racista de que naturalmente o elemento preponderante na mistura das três raças era o branco, e isso faria com que o Brasil deixasse de ser um país incivilizado e subdesenvolvido para encontrar o caminho do progresso, tornando-se branco. Dessa forma, o lugar construído para as mulheres negras, não foi o da intelectualidade. Não foi o da sensibilidade, porque nós fomos despidas de humanidade, assim como os homens negros, porém para eles a construção de gênero se deu de uma outra forma, diferente também daquela pensada para homens brancos. Da mesma forma, que nós não somos as belas, relatadas e do lar, por isso mesmo a necessidade de um feminismo negro. Portanto, a construção do conhecimento não é um lugar para mulheres de modo geral, muito menos para mulheres negras. Desse modo, minha presença no espaço acadêmico é um rompimento com o lugar social imposto à todas as mulheres negras, porque se entendemos racismo e machismo como estruturantes, entendemos também que as consequências da articulação dessas opressões atingem todo um grupo social. Dito isso, ok, eu rompi com a barreira do lugar social, mas não basta apenas estar na universidade, é necessário também buscar mecanismos de construção de um outro conhecimento, de um conhecimento que desconstrua estereótipos, que desmonte a herança da colonização e escravidão, e aponte outras possibilidades de ser e estar no mundo, de fazer política, de construir relações sociais, porque, de fato, a forma centrada no pensamento europeu deu errado. Da mesma forma, que estar no espaço acadêmico não é garantia de que o racismo e o machismo não recaiam mais sobre mim, ou deixaram de ser estruturantes, e de existir na sociedade como um todo, até porque essas opressões assumem variadas formas de ação, das mais explícitas, como as que incidem diretamente sobre as nossas existências, um exemplo é o extermínio da população periférica negra, ou o número de feminicídios contra mulheres negras. Até as que parecem mais sutis, como a necessidade de estar o tempo inteiro comprovando que você é capaz de estar no lugar que ocupa. Ou, que o que você ou seu campo de estudos produz é válido. Nesse sentido, é só pensarmos qual a credibilidade da fala ou do trabalho de uma mulher e de um homem na academia, quem é mais citado, qual trabalho será mais visibilizado. No meu caso, ainda existe o fator da cor. Sim, nossos trabalhos, trabalhos de mulheres e mulheres negras e homens negros são lidos, mas por quem, por quais áreas?
O conhecimento que nós produzimos não atingiu a condição de universal, como o conhecimento que homens brancos produzem, a partir desse olhar de homem branco, porque nós falamos, seguindo a forma como alguns nos classificam, de “especificidades”, de temas “identitários”, como se essas discussões não tivesse relação com o todo. Isso se dá exatamente, porque nós questionamos a universalidade. Acredito que outras formas de construção de conhecimento e de validade desse conhecimento só serão plenamente aceitas quando superarmos a ideia de universal e tratarmos das diferenças humanas e como elas foram construídas e se relacionam socialmente.
Além disso, ainda existe a pressão que recai e que você se coloca, porque é a única, e por isso mesmo precisa fazer sempre o melhor trabalho possível, não só pra legitimar o que sempre nos foi negado, o lugar do saber acadêmico, mas também porque existe uma coletividade que está sempre contigo, da qual por muitas vezes vocês se sente representante, quando na verdade isso é impossível, porque existe uma imensidão de possibilidades de ser negra ou negro no mundo, e de produzir conhecimento a partir dessa posição. Quando você se sente representante ou te dizem que você é representante nesse espaço, novamente o racismo está padronizando a experiência de ser, de existir, que a priori é diversa, porque é humana. Por isso, a necessidade urgente de não sermos mais as únicas, ou únicos nos espaços de poder. Isso me faz lembrar a prova de seleção do mestrado, em um país como o Brasil, estar na universidade e disputar vaga de bolsa de mestrado é para poucos. Na sala onde fiz a prova, eu era a única na posição de concorrente do processo seletivo, a outra mulher negra naquele espaço estava com uniforme de uma empresa terceirizada, servindo café. Isso diz muito sobre romper barreiras, via política pública, que é diferente de meritocracia, destacando que fui prounista cotista. E, também, diz sobre o desconforto que esse lugar gera, e assim vai continuar sendo enquanto o lugar da construção do conhecimento, assim como os outros espaços de poder não for democratizado.

The History Freebooter: Outro ponto que é interessante e que tu tocastes: como uma mulher negra e historiadora, já sabendo que “a pesquisa tem a ver com o que nos toca”, qual a tua relação com a pesquisa de mulheres negras de tempos passados?

Bruna dos Santos: Acho que o primeiro ponto que precisa ser destacado é que para nós, historiadoras e historiadores, o tempo e o espaço são as principais e primeiras categorias de trabalho, essas categorias juntas formam o contexto, que é a partir de onde nosso trabalho constrói as suas bases, ou seja, o contexto é o lugar de onde precisamos entender as ações dos sujeitos com os quais estamos trabalhando. Dessa mesma forma, o olhar que remetemos para os nossos temas de pesquisa estão inseridos no nosso tempo e espaço, ou seja, no contexto do tempo presente. Isso faz com que o tempo seja tão primordial para nós, porque ele de certa forma definiu, limitou e construiu o que nos propomos a estudar e também define, limita e constrói a forma como vamos observar o passado, de acordo com o que trazemos em nossa bagagem, que diz respeito aos espaços nos quais circulamos. Por isso mesmo é impossível fazer sempre a mesma história do passado, porque a História, como saber acadêmico, também se escreve no tempo. Isso quer dizer que quando analiso as mulheres escravizadas através da leitura dos documentos judiciais do século XIX, estou fazendo isso a partir da percepção de uma mulher do tempo presente que construiu sua identidade como negra no contexto do tempo presente, pois houve um processo de ressignificação política do termo negro, no pós-abolição, podemos falar a partir da década de 1930, com a trajetória dos movimentos negros em suas várias fases. Eu já nasci inserida na década de 1990 em um momento de afirmação da negritude, de cerceamento do Estado através da reivindicação de política pública, reivindicações que sempre ocorreram, mas essa era um momento político mais progressista com a redemocratização. Por isso mesmo é mesmo é nesse processo que ocorre o reconhecimento do Estado brasileiro como um Estado racista e também responsável pela superação das desigualdades desencadeadas pelo racismo desde o processo de colonização. Nesse mesmo período, se desenvolveu uma nova forma de observação do período escravista pela historiografia, a partir da década de 1980, influenciada principalmente pelos estudos de E.P.Thompson, e também por uma das respostas que se deu a denomina crise da história, quando os sujeitos emergiram das estruturas tornando-se centrais no desenvolvimento dos problemas de pesquisa. O que ocorre é que o contexto – tempo e espaço – continuam tendo a mesma importância para nós, mas a partir de agora a lógica de observação é invertida, antes se colocava os sujeitos dentro do contexto, agora construímos o contexto junto com os sujeitos, perseguindo eles/as, o que complexifica as relações porque em lugares com as mesmas características experiências diferentes aconteceram, exatamente porque as e os sujeitos manipularam esse contexto de formas diferentes, isso de certa forma da vida aos sujeitos no passado. A partir desse período e nessa perspectiva temos uma importante e vastíssima produção sobre a escravidão, porém ainda é recente a perspectiva de gênero no campo da escravidão no Brasil, acredito que atualmente é consenso que a experiência de homens e mulheres foi distinta durante o escravismo, porém para se fazer uma análise da escravidão a partir das história das mulheres, é necessário articular raça a gênero, fui buscar essa articulação nos estudos feministas negros, ou estudos interseccionais. Esse é também o momento do centenário da abolição, quando tanto o movimento negro representado pelo MNU – Movimento Negro Unificado quanto a História, com essa outra forma de olhar para a escravidão, preocupando-se com a análise dos sujeitos escravizados e com a formação do campo de estudo denominado Pós-abolição, que se propõe e discutir para “Além da escravidão” as temáticas de raça, liberdade, cidadania, trabalho, associações negras, famílias negras, entre outros, cumprem um importante papel como fomentadores das discussões raciais no Brasil. Tudo isso e mais o que não cabe nessa resposta, constituem a forma como eu observo as mulheres escravizadas, e faz parte da relação de estabeleço com elas, para além da sensibilidade da forma como as suas histórias me tocam, uma vez que também fazem parte da minha história, o que é um elemento muito importante. Isso significa que a minha experiência de ser mulher é igual a delas? Não. Que elas vivenciaram a raça da mesma forma que eu vivencio? Não. Que elas se autodenominavam mulheres negras como eu, ou que elas era vistam socialmente da mesma forma que eu? Não. Esse é o desafio das e dos historiadores entender as relações sociais, as ações, as escolhas, os silêncios, a dinâmica de pensamento e organização da vida em outro tempo, apontando os nossos posicionamentos, que são posicionamentos políticos, sem engessar aquelas e aqueles a partir de quem estamos construindo o trabalho historiográfica em nossas percepções. Dessa forma, eu preciso entender como raça e racialização operavam no século XIX, como os papeis de gênero eram entendidos, assumidos e vividos nesse período, até que ponto as mulheres assumiam e aceitavam as suas posições jurídicas de escravizadas, como se movimentavam por essas estruturas e estabeleciam a partir de si mesmas o que era ser mulher nesse tempo e nessas condições, apontando dessa forma também quem era o outro. Assim, o termo “mulher negra” utilizado por mim na pesquisa diz mais respeito a posição política que assumo, do que a cor e o gênero, tal qual eles aconteciam no século XIX, pois elas, as mulheres com as quais trabalho eram pardas, pretas, crioulas, fêmeas, mas entendo que desde esse período, e até antes, vêm se construindo uma autoafirmação sobre ser mulher em suas condições específicas, por isso a escolha pelo uso da expressão “mulher negra”. O que eu compartilho com elas é a continuidade no tempo de ser mulher em uma sociedade racializada.

Quer saber mais sobre o trabalho da Bruna? Assista ao documentário Marias.

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